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domingo, 25 de dezembro de 2011

JÁ É NATAL!



JÁ É NATAL!
(Genaura Tormin)

Meu Deus, já é Natal!
Volto no tempo, sinto saudades!
Os filhos pequenos, as novidades,
Quanta guloseima, os  presentes...

A alegria da gente!
Uma árvore cheia de cartõezinhos!
Minha mãe, toda contente!
Quantos abraços, beijos e carinhos!

As crianças cresceram, mamãe foi para o céu.
Tudo mudou, voou  nas asas do vento,
Versejado agora em forma de lamento.

Viver é isso: plantar sementes!
Acalentar as crias com a seiva do próprio ser,
Deixá-las partir e ficar contente.

FELIZ NATAL!

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

FELIZ NATAL E PRÓSPERO ANO NOVO!



FELIZ NATAL E PRÓSPERO ANO NOVO!
(Genaura Tormin)

Mais um ano a juntar-se à história de nossas vidas!

Muitos acertos, muitos encontros, desencontros, lágrimas e sorrisos. Muitas experiências, conquistas, sucessos, amores que nos fizeram felizes. Muito aprendizado com as dificuldades que nos fizeram crescer! Muito ensinamento com as matérias benfazejas que tivemos a oportunidade de ler.

Se choramos, não importa! As lágrimas nos conduziram na busca de melhores caminhos. O sofrimento é sempre o condutor, o gestor de novos e profícuos passos. Resta-nos sempre AGRADECER.

A vida nos deixa sempre legados de dor e de alegria, tão indispensáveis à nossa evolução enquanto caminheiros desta estrada, além de melhorar a bagagem que aqui estamos a coletar.

É hora de reflexão! De balanço dos défices e créditos. É hora de apararmos arestas e agendar um porvir melhor. Que nesse Ano que se avizinha, possamos servir mais, amar mais, compartilhando o aconchego, o afeto, a poesia, na construção da paz.

Que o amor seja a palavra de ordem para amainar a dor, a droga, a corrupção, a fome, a violência ...

Que o destino da nação siga altaneiro rumo ao bem, gerido pela busca da paz. Como estamos precisando de PAZ!

É preciso inovar sempre! Eleger a bondade e deixar que o amor fale por nós. O resto será consequencia.

Agradeço o carinho de cada leitor que, no decorrer deste ano, aqui me brindou com a presença, valorizando os meus textos, incentivando-me na criação de outros mais. Que eles signifiquem sempre um plantio no compartilhamento do amor, acalentando a alma e o coração de quem os lê.

Agradeço, igualmente, pelos comentários deixados. São essas menções de carinho que me renovam a fé, a força e a vontade de viver. Vocês serão sempre o maior motivo que me leva a carpir versos, a galopar no dorso da poesia, que me dá tanta alegria, na tentativa de me construir melhor a cada dia.

Desejo que o ano de 2012 seja de muita paz, muitas conquistas no bem! Que a poesia se faça presente para azeitar a alma, acalentar os momentos desbotados que a vida nos oferece.

E, principalmente, que cada poeta use a sua voz, o seu espaço, o seu versejar, no exercício da função social, na incansável tentativa de melhorar o porvir.

FELIZ NATAL E PRÓSPERO ANO NOVO!!!!

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

ABRACE-ME!


ABRACE-ME!
(Genaura Tormin)

É agora,
Quando menos mereço,
Que preciso desse silêncio,
Desse querer cumpliciado
Para secar-me o pranto,
Abrandar-me as falhas.

Silêncio é prece,
É carinho dividido.
É o amor que exalta,
Que perdoa no gesto do sorriso,
Nos braços que amparam...
É disso que preciso.

Significa grandeza,
Espírito evoluído.
Não me deixe sangrar,
Não me deixe sofrer!
Tenho tantas feridas!
Muitas, ainda exangues
Ao escárnio da vida.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

SOLDADO DE MINHA BATALHA


SOLDADO DE MINHA BATALHA
(Genaura Tormin)

De repente
Tingiu-me a alma
Um sentimento de ternura,
De agradecimento...
De felicidade!

Quero rezar!
Quero agradecer
Às dificuldades,
Que me fazem forte,
Aos amores,
Que me fazem terna,
Aos desafios,
Que me tornam soldado
De minha própria batalha.

E no tanger do existir
Quero sentir,
Quero ser,
Quero ir
Aonde os versos me levarem.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

A VIDA É UM ARSENAL DE RIMAS


A VIDA É UM ARSENAL DE RIMAS
(GenauraTormin)

Em silêncio,
Viajo pelos caminhos do tempo.
Chapéu na cabeça e água no cantil,
Enfrento as intempéries
Do vento, do frio...

O coração segue contente!
A fé é o escudo, a coragem o guia.
A brisa me acaricia
Pelas manhãs da existência.

Prenhe de todas as idades,
Cultivo um coração de menina.
Encho-me de magia,
Faço poesia.

Galopo no dorso da fantasia.
Junto-me ao gorjeio da passarinhada...
Meu canto acorda madrugadas.
Ainda sou uma ave das campinas.
A vida é um arsenal de rimas.

sábado, 10 de dezembro de 2011

O HOMEM É AQUILO QUE PENSA


O HOMEM É AQUILO QUE PENSA
(Genaura Tormin)

Por isso se desejamos fazer mudanças em nossas vidas, comecemos mudando os nossos pensamentos!

Viver com confiança e otimismo é abrir as portas para a paz e a felicidade. É investir no "eu interior".

O segredo é mesmo vigiar os pensamentos, mantendo-os numa faixa elevada. Exercer o ofício de jardinagem, ajeitando a vibração mental como se fosse um jardim florido e perfumado. Separar o joio do trigo. Assumir as responsabilidades, tentando fazer o melhor perante a vida e perante Deus que nos espera para outra empreitada. E que essa seja melhor, construída da bagagem que hoje estamos a coletar aqui.

Chega um momento em que você fica tão feliz, tão feliz, inundado de paz, e não sabe o porquê. É que você mudou a sua maneira de pensar.
Quando nos sentirmos em paz com a nossa consciência, alegres e felizes, todas as outras coisas convergirão para o nosso bem. Estaremos começando a ser vencedores. Por isso eu desejo:

Que o coração nunca seja agasalho para as coisas espúrias...

Que as intempéries do caminho signifiquem lições de vida, degraus para o progresso, setas indicadoras para o bem.

Que floresça a pureza da criança interior que tanto tem a nos ensinar.

Que o sorriso seja constante, espontâneo, verdadeiro, uma prece que inebria, uma canção que consola... O sorriso é prece. É Deus dentro da gente!

Que a chuva seja o bálsamo para aliviar o pranto, curar as dores, cicatrizar as feridas.

Que os amores contenham a magia, o encanto em cada encontro, o beijo da alegria.

Que a cada amanhecer os olhos possam mirar a vida, dispostos a enxergarem o melhor de cada um e, além de tudo, a coragem, a bravura para as boas aventuras.

Que os dias sejam azeitados pela poesia, propiciando que a alma possa alar voos na alegria de viver, crescer e vencer.

Que em cada contato, em cada diálogo, possas deixar marcas benfazejas inesquecíveis.

Que na solidão e no cansaço, lembra-te de  que tudo passa, tudo se transforma. Haverá sempre um outro dia, uma outra oportunidade.

Que o coração seja contente, solto, voante... E nas asas da espiritualidade, alcance patamares superiores de evolução.

Que por onde andares, a força do AMOR esteja sempre presente, sinalizando direções, amainando as intempéries da estrada.

Que este amor seja a meta, o rumo, a estrela-guia, a tramontana, pelas veredas do bem, transformando os dramas em soluções e o caminhar cansado em passos saltitantes de alegria e felicidade.

Que DEUS  te abençoe sempre e que esta existência seja plena de paz, de aprendizado, de luz...

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

O QUE RESTOU


O QUE RESTOU
(Genaura Tormin)

A tristeza recolheu-se mórbida, arredia.
Enclausurou-se em compartimentos secretos,
Recuos escuros, fragmentados em ecos.
Tudo ficou vazio, amorfo, sem cor...
Acrescido de um enorme gosto de dor.

Na garganta emudeceu o canto.
Foi-se a melodia e toda aquela alegria!
Em cacos desfez-se o sentimento.
Uma tela desfigurada, em garatujas bordada,
Foi o que restou.

Gyn, 01.12.2011

terça-feira, 22 de novembro de 2011

OSTENTO O AMOR



OSTENTO O AMOR
(Genaura Tormin)

Viver?
Penso que aprendi agora,
Depois de tantos passos inúteis,
Falsos, conturbados...
Tantas quedas, tantos percalços.
Conheci-me depois dos tombos,
Diante das feridas ainda exangues.
Gosto-me assim!

A existência é um palco
E eu sou sua personagem
Nua, consciente,
Agora contente e sem adereços.
Sou, como sou!
Ostento a alegria,
A poesia e o amor!

Gyn, 22.11.2011 10h

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

MEU ANJO-MENINO


Um poema para o Rodrigo, meu primeiro neto. Uma criança linda, alegre, carinhosa... Um presente de Deus! Ainda ouço suas passadinhas pela casa, acompanhadas do balbuciar de sua pouca idade, que se assemelhava ao trinado de passarinhos. Que saudade! Rodrigo é um bom menino, dono de todas as qualidades. Mora no coração da vovó. Hoje já é um rapazinho!

MEU ANJO-MENINO
(Genaura Tormin)

És pequeno,
roliço,
cheiroso,
gostoso feito morango.

Do céu,
és o meu pedaço,
nesse laço
que envaidece
o passo
deste caminho cármico.

És meu anjo-menino,
fofinho feito algodão.
Com o sorriso mais lindo
e esse jeito de travesso,
és vida da minha vida,
versos do meu poema,
música do meu coração.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

SOU TUDO E NÃO SOU NADA


SOU TUDO E NÃO SOU NADA
(Genaura Tormin)

Nos recônditos de mim,
Os compartimentos secretos do ser que sou.
Descubro-me inteira, com essência e cor,
Pois a coragem que me alicerça,
O vento não levou.

Os versos ainda dedilham um canto,
Uma melodia, uma canção...
Sorvem o néctar das flores
E o gosto dos amores.

A alma alada viaja pelo eito das palavras,
No dorso da poesia.
E na estrada, agora tão vazia,
O amor ainda se faz, amainando dores.
Trago a sonoridade das cascatas.

Ainda sou um rouxinol ao cair da tarde.
Galopo no caminho da mata densa,
E me embriago com o cheiro da terra molhada.
Sou tudo e não sou nada!

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

PALAVRA


PALAVRA
Genaura Tormin

Palavra,
Liberdade sonora,
Farol que alumia
A essência da vida.
Alumbra a fantasia,
Acalenta a alma,
Voeja paraísos intocáveis.

Ingênua, despida,
Enfeita-se de sonhos,
De magia e lógica.
Em voos azados por signos,
Mostra-se cativa ou soberba.
Em roupagens lúdicas,
Provoca sorrisos,
Alinda o amor.
Pode lanhar o coração,
Vestida pela dor.

Nave dos sentidos,
Transporta a exultação do belo,
A contemplação do silêncio inaudível,
Encapelado por dores guardadas
Nas águas revoltas do existir.

Palavra,
Canto órfico que se transmuda,
Esgueira-se em harmonia
Pelo cosmo, pelo infinito...

E o amor se faz
Nos eitos de palavras soltas,
Regadas por lágrimas,
Plantadas ao açoite do vento,
À luz primeira de um amanhecer risonho.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

MEUS NOVELOS


(Para Alfredo, meu marido. Este poema fala da alegria por sua volta ao lar, são e salvo, depois de um CA que o deixou na UTI, quase sem chances. Obrigada, Senhor da Vida!)

MEUS NOVELOS
(Genaura Tormin

Emaranhada
Em meus novelos de sensibilidade,
Tenho lágrimas por escudo.
São elas marcos de alegria, de felicidade.
A voz dos meus sentimentos.
Não posso contê-las.

Deixo-as que me lavem as faces,
Apascentem-me a alma,
Conduzam-me a campos verdejantes,
Com brisa do rosto e terra molhada.

Quedo-me em prece e agradeço.
Não há palavras capazes de traduzir
O contentamento que me invade o peito.
Uma batalha vencida,
Uma graça recebida,
Um presente especial: UMA VIDA!

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

POEMA RECLUSO



POEMA RECLUSO

(Genaura Tormin)



No horizonte,

Moribundo se curva o sol poente.

Um dia a mais passou sem que eu te visse.

O poema recolheu-se medroso

Ao frio de minha tristeza.

Tudo extremamente só!



Os momentos se arrastam

E a nossa música agoniza,

Chegando a ferir os meus ouvidos.

Há um marasmo no ar.

Um gosto fúnebre,

Uma carência dolorida.

Tudo tão eterno, feito a saudade tua.



Não há aroma de flores,

Nem cantar de pássaros...

O vento está parado,

Nem sibila a ramagem lá fora.

Apenas a companhia de fantasmas.



Parece o fim!

Faz frio na alma,

E congelado está o amor

Nos compartimentos de mim.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

PENSE NISSO



PENSE NISSO

(Genaura Tormin)





Tenho pena desse povo sem juízo,

Que não se gosta, não se ama,

Entra nas drogas, fica doente,

Não trabalha, fica indolente,

Prejudica a saúde, a família,

Perdendo a autoestima, a alegria.



Não pode ser demente,

Quer ser irreverente.

Fico a perguntar-me por quê?

Não é alimento, nem remédio,

Nem ingresso para o paraíso.

É só tristeza e prejuízo.

Então, por quê?



Dizer NÃO é a solução,

Para não sofrer demais,

Para não matar os pais do coração.

Pense bem!

Seja forte, cabeça boa!

Depois, vem a AIDS.

Você quer sofrer à-toa?



Já chegam as doenças, os sacrifícios,

A violência, a fome, a falta de justiça,

O salário mínimo e a corrupção dos políticos!

Diga NÃO às DROGAS!



Estude, trabalhe, pratique esportes,

Corra, dance, nade, viaje... viva!

Você nasceu aqui, você tem sorte!

Aqui não tem vulcões, guerras, inundações,

Nem “tsunamis”.

Pense nisso! Você tem que ser forte!









quarta-feira, 17 de agosto de 2011

MESMO SEM NOÇÃO


MESMO SEM NOÇÃO
(Genaura Tormin)

Abro minhas comportas,
Deixo jorrar a dor.
As asas cansadas,
Quedam-se apáticas
Num lugar qualquer.

Sem noção,
Rumino pensamentos,
Vasculho cantos,
Abro gavetas,
E faço versos coloridos
Da tristeza que restou.

Sem noção,
Colo os poemas
Nos troncos das árvores,
Nas asas das pandorgas viajeiras,
Nos muros dos casarios
Para não me olvidar no tempo,
Para não morrer antes da hora.

Sem noção,
Quero a exegese do silêncio,
O cancioneiro do Apocalipse,
O veneno e o remédio.

Sem noção,
Quero o grito bramindo mares,
O assobio da ventania,
A despedida da dor,
Na amostragem da alegria,
No canto da felicidade,
Para ostentar o amor.

Mesmo sem noção,
Optei pelo melhor.



domingo, 14 de agosto de 2011

FALTA ACESSIBILIDADE


FALTA ACESSIBILIDADE
(Genaura Tormin)

Vencer barreiras arquitetônicas é um dos grandes desafios enfrentados no dia a dia da pessoa com deficiência física, principalmente a que deambula de cadeira de rodas.

Muitos obstáculos a vencer! Entretanto é necessário conquistar a liberdade de ir e vir, mesmo a duras penas, ingrediente principal que nos garante a inclusão na sociedade.

“Levanta e vem para o meio” é um o tema da Campanha da Fraternidade.

Embora o desafio seja a nossa meta para criar consciência popular sobre essas pessoas diferentes, há muito ainda a desejar. A acessibilidade, condição indispensável para que possamos viver com dignidade, é a principal, pois precisamos nos mostrar, exercitar o nosso caminhar. Enfim, viver, como cidadãos que somos.

Para ilustrar, vou contar uma pequena história:
Uma viagem à praia. Um resort à beira-mar adaptado às condições de uma pessoa com deficiência locomotora que não prescinda de uma cadeira de rodas. Tudo acertado com o agente de viagem. Ponte aérea, sol bem arregalado, num cantinho do céu, chamado felicidade.

No aeroporto o veículo estava à nossa espera. Um micro ônibus, com porta estreita e a informação de que estava emperrada, tornando-se mais estreita, ainda. Não conseguia completar seu curso de abertura. Impossível uma contensão de forças másculas para rebocar-me ao seu interior. Não passaria pela porta envolta em braços.

O agente de viagem embarcou-nos num táxi, à nossa expensas financeira, com a promessa de ressarcimento, o que não aconteceu.
Mas, vamos lá, um problema vencido, característica indômita do brasileiro e do determinismo em reverter situações adversas.

Após o percurso de uma hora mais ou menos, eis-nos à frente de um majestoso resort, com lindas trepadeiras floridas que lhe enfeitava a entrada.

Logo, o nosso quarto, bonito e aparentemente adaptado às minhas condições de cadeirante. Via-se que passara por uma recente reforma. Amplo e aconchegante, com lindas cortinas e uma sacada, de onde se desnudava o mar bravio que se escondia manhoso depois dos coqueirais balouçantes, com cheiro de brisa e maresia. Um convite a uma estada feliz e renovadora.

O banheiro, cheio de pretensas adaptações distribuídas pelas paredes.
Na verdade, aos olhos do leigo, era possível distinguir-se pelo esmero, e quem sabe, pelo respeito aos seus reais usuários.

Que tristeza! Nada tinha a ver com as necessidades de uma pessoa com deficiência física. Poderia servir aos muletantes, nunca a um cadeirante.

Num quadrado, de um metro mais ou menos, com paralelas laterais de apoio, sem espaço ao lado para o posicionamento da cadeira de rodas, encontrava-se centrado o vaso sanitário. Era como se o seu usuário, num passo de mágica, ficasse de pé e desse meia volta para se sentar nele. Além disso, havia uma grande distância entre a parte posterior do vaso e a parede. Onde apoiaria as costas? Como fazer os manuseios sem equilíbrio? Qualquer descuido poderia cair para trás.

Impossível, mesmo, usar o sanitário do lindo resort. Precisava apoiar as costas para fazer os manuseios de assepsia e introdução da sonda vesical. Nem mesmo para tentar, teria condições.

O chuveiro, num requintado box, continha uma cadeira minúscula, sem braços, com o assento em tiras, dependurada numa alça de apoio, postada em desconexo com a altura e com os registros misturadores de água quente e fria.

Impossível acioná-los, pois ficavam às costas, numa posição bem acima do desejável. Como lavar os órgãos genitais nessa gangorra, que mais parecia uma balança, pois os pés não alcançavam o chão. Soltar as mãos da alça de apoio postada na parede, nem pensar. Um tombo seria inevitável. Lavar os cabelos? Também não.

Do pomposo banheiro, quase um salão de banho, restava ainda o lavatório, com secador de cabelos, torneira fotocélula (aquela que se abre com a simples aproximação das mãos) e um grande espelho à frente.

Não precisava observar muito para ver que também não podia acessá-lo. Encontrava-se sob o lavatório, um obstáculo, um cano, usado como cabide para as toalhas, impedindo, por sua posição e altura, o encaixe da cadeira de rodas para conseguir usá-lo. Nem lavar as mãos, eu conseguia. O jeito mesmo era passar uma toalha molhada.

Improvisar para não chorar. Não havia outra saída. O que fazer? Estávamos ali para descansar, para ser feliz. Eu não podia ser o empecilho. Assim, sorriso pra lá, sorriso pra cá e a vida a passar.

"Faz de conta" é a ordem. Afinal o mundo não é adaptado para nós, embora existam leis que determinem esse procedimento.

Em tempo oportuno, tentei conscientizar o responsável administrativo do resort e, lamentavelmente, fui informada de que para toda aquela pretensa adaptação, fora contratada uma Assessoria.

Ponho-me a pensar:
Como são desinformados, para não dizer IRRESPONSÁVEIS. Nem uma Assessoria, paga para um trabalho especializado, empenhara-se em se informar, em pesquisar para entender as necessidades primárias de um ser humano diferente. Não houvera preocupação em fazer jus, honestamente, ao dinheiro que lhe fora pago.

Os reais usuários, jamais são consultados. É como se fôssemos objetos inanimados, indesejáveis.

Por isso essas obras parecem eleitoreiras, ou simplesmente, edificações para burlar as obrigações determinadas pela lei.

Somos um país em desenvolvimento, tão diferente dos países de primeiro mundo!
Respeito é uma palavra meio desconhecida por aqui.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

RÉQUIEM A MEU PAI


RÉQUIEM A MEU PAI
(Genaura Tormin)

Papai, hoje é o seu dia! O dia dos pais!
Como sinto a sua falta!
Fecho os olhos e vejo você ao meu lado,
Falando das coisas da vida.

As nesgas do sol poente,
Parecem trazer-me, por acalanto,
Os seus recados, a sua presença junto a mim.
Que saudade do nosso convívio,
Da nossa alegria...
Quantas brincadeiras,
Quantas risadas nós dávamos juntos!
E a vida era bela, bela vida!

Lembro-me de você, papai,
Ao meu lado no leito de hospital,
Quando a vida achou por bem me tolher os passos.
Sofregamente, você me afagava os cabelos.
Austero e forte, você fora sempre.

Mas, naquele dia,
Acabrunhado e humilde ao meu lado,
Você sofria!
Como gostaria de ter-lhe evitado tamanha dor!

Depois,
Uma nuvem de tristeza cobriu o nosso lar,
A nossa vida, a sua vida, papai!
Passei a vê-lo cabisbaixo de barba grande...
Logo você que era tão vaidoso.
Eu sabia que você sofria.
É, papai, quanta tristeza eu lhe dei!

Hoje, volto ao passado e vejo que,
Mesmo sem andar, eu caminhei muito!
Tenho os pés cansados da jornada,
Feridos pelas pedras do caminho.
Preciso de um colo para descansar,
Preciso de um ombro para chorar.

Eu tentei caminhar...
Tento, ainda, com “unhas e dentes”.
Insisto sempre!
Recomeço a cada tombo,
A cada caminho truncado.
Se não marco passadas no chão,
Marco-as no coração,
Em trabalho, amor, poesia...

Você foi um motivo para o meu desafio.
Como queria entregar-lhe o troféu do meu esforço!
Mas você foi embora, numa noite fria, sem dizer adeus.
Queria que estivesse aqui para ver os meus rastros
Deixados na estrada da vida.

Papai, que saudade!
Mas que saudade, mesmo!
Receba, neste dia,
O preito de minha gratidão,
Do meu afeto, do meu carinho,
Da minha saudade!


quinta-feira, 11 de agosto de 2011

ARAUTO DO AMOR


ARAUTO DO AMOR
(Genaura Tormin)

O poeta é um trabalhador de versos!
Livre para voar alto, longe, solto...
Encanta e se encanta.
No galope das metáforas,
Cria fantasias,
Pega carona no vento
E conquista o infinito.

É um caudal de emoções que se espraia.
É metacoração,
Meio anjo, meio canção.
O poeta é protetor!
Na cantiga das mudanças,
É um arauto do amor!
Veste tudo de esperança.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

PODES ME DECIFRAR



PODES ME DECIFRAR

(Genaura Tormin)

 

Sou o que pensas de mim,

A imagem captada por tuas retinas,

Enfeitada pelo afago da tua ternura,

Ou pelo açoite do verdugo

Que possa morar em ti.



Sei que sou enigma, segredo, surpresa...

Debulho-me em lágrimas...

De medo, arredia me encolho.

Quero colo, preciso de amparo.

 

Se quiseres,

Podes me decifrar!

Serei a tua construção.

A argila moldável em tuas mãos.

Posso ser Anjo ou demônio.

A obra-prima esculpida em teu coração.



Mas por favor,

Não me machuques!

Tenho tantas cicatrizes,

Que ainda me causam dores.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

GRILOS ATREVIDOS


GRILOS ATREVIDOS
(Genaura Tormin)


Sob a luz fina do abajur,
Em fímbrias multicores,
A aranha solitária
Tece a sua teia.

O coração a planger,
Se alumbra das migalhas
Do amor que teve.
Tece fios de seda
Do sonho ainda exangue.
Fausto tempo se foi
Emoldurado de graça e riso.

Passam-se os dias,
Noites, meses e anos...
O trabalho continua o mesmo:
Cerzir feridas,
Orquestradas por grilos atrevidos.

Hoje,
A teia é o abrigo,
Iluminado pela mortiça luz
Do abajur antigo.


sábado, 6 de agosto de 2011

PAR DE TÊNIS


PAR DE TÊNIS
(Genaura Tormin)

É um par de tênis velho,
Surrado,
Desbotado,
Que tenho guardado.

Aguça-me a memória,
E eu volto ao passado.
Seu solado gasto,
E a forma encarquilhada,
Relembram-me as batalhas.

Era o coadjuvante,
O suporte da minha teia,
Na disciplina da vida,
No ir-e-vir lépido e faceiro...

Era o enfeite preferido
Dos meus pés andejos,
Que bailavam em
Passos apressados, lentos,
Jocosos, manhosos...
Quantas divisas,
Quantas conquistas!

Hoje,
Meu par de tênis,
Quieto no armário,
Ainda me espreita de soslaio,
Contando a minha história,
Reclusa no relicário,
Deste peito que ainda chora.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

SOBRE PÁSSARO SEM ASAS


SOBRE PÁSSARO SEM ASAS


Genaura, minha querida!

Acabei de ler seu “PÁSSAROS SEM ASAS”.
Continuo em estado de graça. O livro chegou-me em boa hora.
Estava desanimada, para baixo e desde que o vi, comecei a ler sem parar.
Eu chorei, eu ri, eu me emocionei, mas principalmente, eu me animei.

Vivo a cada minuto e a cada passo lembrando você, sua luta, sua força, sua garra e sua vitória. Me policio cada vez que tenho pensamentos negativos, lembrando você como se fosse uma luz num farol mostrando o caminho para a navegação.

Eu já tinha por você um grande amor cheio de admiração. Sabia de sua luta, mas sabe-lo em detalhes, cada mínima dificuldade por você superada, deixou-me ainda mais admirada com sua força.

Sinceramente, não é para qualquer um.
E você é uma heroína. Uma grande mulher de quem tenho grande orgulho de ser amiga.
Agradeço a Deus o dia em que colocou você no meu caminho, pois é exemplo a ser passado para todos, todos os dias.

Vou passar seu livro adiante, emprestando a tanta gente que sei que encontrarão nele um alento e uma muleta para mudar a vida.

Genaura, você não é capaz de imaginar o que seu relato de vida é capaz de fazer às pessoas.
Continuo como disse, em estado de graça.

Obrigada por compartilhar comigo seu PÁSSARO SEM ASAS, que de “SEM ASAS” nada tem, pois é alado e capaz e sobrevoar sobre outras vidas trazendo no bater das asas, a brisa que traz o perfume da compreensão, do amor, do exemplo e da superioridade de uma mente evoluída.

Parabéns querida!
E obrigada por tudo.
Beijos
Mari

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

FAUNA DOS SONHOS


FAUNA DOS SONHOS
(Genaura Tormin)

O tempo levou-me os sonhos,
Tantas esperanças,
Retratados em desejos mil,
Na fértil imaginação de criança.
Como era feliz e não sabia!
Sem máscaras, sem disfarces...
Apenas eu mesma: sorriso escancarado,
Correndo ao vento,
Aos píncaros dos folguedos do meu tempo.

No céu talhado de nuvens,
Bordava as fantasias
Com os flocos dançarinos de algodão.
E as mágicas aconteciam,
Em carruagens, reis e rainhas,
Príncipes e lagos encantados.

Foram-se os anos,
Tão rápidos, tão velozes,
Até que me descobri adulta.
Vi, com tristeza, que o sol radiante
Havia mutilado as nuvens,
Os flocos de espuma, a fauna de sonhos,
Esconderijo dos meus desejos.

Em troca, restaram-me meras coisas,
Sem formas, vazias,
Dispersas em fumaça, em dores,
Que poluíram o azul de minha vida.
O horizonte, nem sei se existe mais.
Quisera ter impedido o sopro do vento.
Quisera ter retido as nuvens do meu tempo.

ESTOU NO CAMINHO


ESTOU NO CAMINHO
(Genaura Tormin)

Faça sol ou faça frio,
Eu sigo contente
A minha estrada!
O fardo é pesado
E o meu jugo oprime,
Mas o amor me redime.

Faz-me seguir o destino,
Fruto de minhas escolhas!
O amor é o escudo,
A bússola que me orienta,
A estrela que me guia.

Na aljava seguem as armas,
A proteção para os meus pés,
O alimento para a alma.
Estou no caminho!

terça-feira, 2 de agosto de 2011

TETO DO MUNDO


TETO DO MUNDO
(Genaura Tormin)

Ao amanhecer
O sol desponta no horizonte.
A natureza se rejubila em festa,
Desfolhando versos
Nos ninhos que se multiplicam.
A brisa acaricia a ramagem,
Sobe às colinas...
Os riachos correm dançando,
Abraçam os rios,
Alimentam várzeas e peixes,
E seguem cantarolando para os mares.

É a vida fluindo contente
Na policromia dos vales e montes,
Das flores e fontes.
Não há lamentos!
Tudo a seu tempo renasce,
Floresce e encanta,
Na orquestra de cada manhã.
Depois, o sol vai descansar.
Vem a noite em seu manto de gala
Integrar a perfeição do Universo,
Rendilhando de estrelas,
O TETO DO MUNDO.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

O TREM NÃO ATRASA

Flores de minha casa espiam a rua por mim.

O TREM NÃO ATRASA
(Genaura Tormin

Existência guardada
Na caixa do tempo,
No relógio da vida,
Onde vaga a memória
Na justeza dos atos,
Da consciência tranquila.

Viver é isso:
Evoluir, crescer...
Para depois partir.
A passagem de volta,
Há muito foi agendada
E o trem não atrasa,
Parte na hora marcada.

Em títulos da alma,
Transcende a bagagem
Na paz do caminho,
No final da estrada.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

CARINHO DE UM POETA PORTUGUÊS


Costumo postar os meus textos também no HORIZONTE DA POESIA, um site português, uma Confraria de execelentes poetas daquele país lusitano, terra-mãe do nosso Brasil. Primam pelos bons textos, pela sensibilidade e pelo calor humano.

O poeta é um plantador, e a ele cabe alistar-se na semadura do bem, na construção de um porvir melhor.

Preocupo-me com isso e curvo-me com respeito diante desses sensíveis trabalhadores, cujos escritos em verso e prosa se multiplicam mundo afora na construcão de tanto bem, de tanto alento, de tantas lições benfazejas, hoje veiculadas, como num passo de mágica, por essa maravilhosa rede mundial de computadores que abraça a todos, mesmo em países cujo vernáculo é diferente. Isso é ascensão!

Ainda recente, publiquei um capítulo do meu livro PÁSSARO SEM ASAS, intulado "EU PRECISAVA CHORAR", naquele Site.

Realmente, eu precisava chorar mesmo, pois os relatos ali enfeixados são verdadeiros, escritos com a dor de quem protagonizou ou protagoniza na escola vida, uma história de dificuldades, de machucaduras, cuja opção é apenas VENCER OU VENCER.

Contudo, sinto-me uma campeã. Venci a batalha, subi ao pódium e recebi o troféu.
Por isso divido o caminho a que me propus enfrentar com os meus leitores, para justificar o meu pedido de alistamento como recruta nesse batalhão do bem.
_________________

Assim, percebi com espanto que o texto ganhara muitas leituras e, além dos muitos comentários postados, encontrei também um poema.

Encantou-me o carinho do colega, o que me faz dividir com vocês a grandeza desse poeta, bem como a excelência de seus versos que me fizeram muito contente.

CARINHO DE UM POETA PORTUGUÊS

"Eu li com emoção o que escreveste:
A confissão da pena, da tristeza,
Que fez desaparecer no azul-celeste
O Ser que te gerou, sua grandeza

Grandeza que ao dizeres transparece
Em todos estes termos comoventes;
Grandeza que ganhaste e fortalece
As pernas que sem força estão dormentes

E como tu recordas a criança
Que num dia tão triste quis dar colo...
Numa atitude digna de esperança
Que esses conselhos seus dessem consolo...

A vida te foi dura e de embaraço
Para a fazeres em pleno em teu desejo!
E sei não te curar com um abraço...
E sei, também não curo com um beijo

Mas hoje que estás mais habituada
E encaras como dizes já feliz,
Desejo que tu vás vencendo a estrada!
Que o Amor seja pra ti sempre a raiz!

Um beijo
Joaquim Sustelo"

Querido amigo,
Que prazer ler tão lindo poema e sabê-lo feito para mim. Sua carga de sentimento e ternura acalenta-me a alma, faz-me contente e feliz. Mais uma vez, sinto que acertei ao enfrentar as agruras do caminho, transformando-as em aprendizado e ascensão rumo aos objetivos a que me propus. Você é um excelente poeta, cuja sensibilidade escapa-lhe, ornando os versos, sublimando num benfazejo plantio. Não mereço tanto, mas agradeço. Vou guardar o seu gesto no meu coração.
Obrigada
Beijo grande da
Genaura Tormin
Gyn 05.05.2011

domingo, 17 de julho de 2011

BREVÊ


BREVÊ
(Genaura Tormin)

Embora brancos estejam os cabelos,
Eu me vejo criança a pedir colo,
Implorar guarida.

Ainda tenho medo de ficar sozinha!
Medo da escuridão,
Do vento que soluça ao meu ouvido.
Tenho medo da chuva
Que tamborila na vidraça...
Medo do bicho papão,
Da minha infância tão distante!

Ainda preciso que me segurem a mão.
Tenho medo de fantasmas.
E quantos fantasmas bordaram a minha vida!
A fragilidade bate-me à porta.
Toma-me a alma em desalento.
A máscara caiu, obsoleta e fria.
Já não preciso dela.

Quero o direito de ser boba, frágil, idiota...
Estou pedindo alforria.
Não quero mais ser gente grande.
As crias cresceram e partiram.
Estão seguindo as suas trilhas.

Cumpri o dever e exerci o pacto do amor,
Que impregnado, melhorou-me o ser.
Mais aprendi que ensinei.
Agora, eis que estou a devolvê-las.
Afinal é a sina de todas as mães,
Pois os filhos não são nossos.
São empréstimos de Deus,
Cabendo-nos o feitio de suas asas,
E o brevê para voarem sozinhos,
No céu de suas vidas.

sábado, 16 de julho de 2011

IMAGEM BONITA


IMAGEM BONITA
(Genaura Tormin)

Estou no teu pensamento,
Numa imagem bonita,
No sentimento que me dedicas.
Sou jovem, sou velha,
Sou o tempo, a experiência,
A caminhada, ladeiras e decidas...
Sou argamassa em tuas mãos.

O barro do oleiro,
A arte do artesão.
Sou a canção de uma noite fria,
A solidão do seresteiro,
Ou o canto dolente do boiadeiro.
Quero escalar o infinito,
E deixar meu grito para o mundo inteiro.

terça-feira, 14 de junho de 2011

O MÉRITO NÃO FOI MEU


Eis mais um capítulo do meu livro - PÁSSARO SEM ASAS! Um brinde aos meus leitores. Espero que gostem, pois a premissa maior alicerça-se na coragem e na vontade de seguir em frente!

O MÉRITO NÃO FOI MEU
(Genaura Tormin)


Passaram-se alguns anos desde a última vez que, voluntariamente, dirigi meus passos, impregnando formas no chão. Fisicamente não consegui andar, mesmo envidando muitos esforços. Entretanto minhas pegadas avolumaram-se na caminhada do bem servir e no conhecimento do existir, tornando-me forte e altiva, apesar do rangido brusco de quatro rodas pelo chão.

Dentro de minhas limitações, sou livre: corro em idéias, em versos, em sorrisos, em trabalho, em transcendências ao infinito.
Ouso dizer que o mérito não foi meu, mas de toda a família, parentes, colegas de trabalho, amigos e conhecidos, a quem cabe a responsabilidade pelo meu desejo, cada vez maior, de vencer.

Rendo gratidão aos espíritos evoluídos dos meus superiores da Secretaria da Segurança Pública e Justiça do Estado de Goiás que me conservaram no cargo, valorizando a minha competência, embora a natureza do trabalho exercido ali fosse, em princípio, um paradoxo à minha condição física. Entenderam que o maior potencial está na disposição para vencer, além do preparo técnico-científico inerente ao exercício do cargo. Naquela época, trabalhar numa cadeira de rodas era um fato estranho, quase inusitado, embora a deficiência constitua uma parte natural da experiência humana. E o exemplo ficou para todos os órgãos públicos e privados.

Atribuo o maior mérito ao meu querido Alfredo que em nenhum momento tem-se cansado da caminhada. Combativo, determinado, não tem poupado esforços para me devolver não duas pernas, mas uma miríade delas. Sinto-me uma centopéia. Estou cheinha de pernas. Mais do que preciso. Ambos chegamos a uma autotransformação mediante um processo de evolução consciente. Mesmo quando eu menos mereço, ele é capaz de me amar. A ele, reitero o meu carinho, a minha gratidão. Nossa cumplicidade tornou-nos imbatíveis e unos. A ele o carinho dos meus versos:

INDIVISIBILIDADE

Quando tu partires
Irei contigo.
Levarei o aconchego da noite
Para te fazer feliz.

Serei suave,
Feito o balanço do mar,
Para te amar,
Amor.

Irei contigo
Aonde fores.
Tuas pegadas
Serão as minhas pegadas,
E eu te amarei
Em todos os momentos.

Não choraremos
Porque as lágrimas secaram
Com o sol da manhã,
Fazendo-nos fortes
A qualquer embate.

Irei contigo
Até o infinito,
Onde tudo é perfeito,
Sem dor,
Sem mutilação,
Sem medo.

Irei contigo,
Amor,
Porque faço parte de ti,
E tu és tudo
Que sempre cultivei em mim.
Assim,
Seremos indivisíveis,
Unos e eternos.

Alfredo estava sempre comigo nas primeiras vezes. Juntos, ganhamos a corrida. Subimos ao pódio. Ganhamos o troféu.
Voltei a fazer tudo o que fazia antes. Às vezes a situação torna-se apenas engraçada, nunca impossível.

Trabalho todos os dias e nos feriados e fins de semana vou à cozinha, arrumo armários, conserto roupas como toda dona de casa. O fazer não está sempre adstrito em subir escadas para alcançar armários embutidos, mas administrar, estar presente, coordenar, dar as cartas. Assim as barreiras não existem. Os encargos são-me atribuídos como antes. Não sou vista diminuída, mas até acrescida. Permito-me todos os afazeres: comigo, com o marido, com os filhos e com o meu trabalho. Se o avançado da hora se registra e o dever me chama, aceito ajuda como qualquer pessoa andante, não como dependente.

A vida social continua. Participamos até de bailes. Temos uma Associação de Delegados, com excelente sede e farta pista de dança, onde praticamos lazer, trocamos idéias, tomamos uma cervejinha e dançamos. No início, os colegas paparicavam-me muito. Aproximavam-se de nossa mesa para fazer-nos companhia e externar solidariedade. Usavam o elogio para compensar a disfunção dos meus membros inferiores, tão indispensáveis para a dança, o que eu retrucava com galhardia:
— Você não leu o “Meu pé de laranja-lima”, de José Mauro de Vasconcelos, Saint Exupery... “O essencial é invisível aos olhos, é preciso buscar com o coração”. Por isso, colega, fui eu quem iniciou a dança, quem inaugurou a pista. Adoro dançar! Danço em cada um de vocês e com cada um de vocês. Em cada passo, estou atenta para não errar. Danço com a alma, com o coração e sinto que a cada dia bailo melhor, encontro-me com a vida e sou feliz.

Aprendi a conviver pacificamente com as amarras da deficiência. Não me reconheço no passado. Acho que sou uma nova mulher. Gosto-me assim. Consigo driblar dificuldades e isso significa muito para mim.

De todas essas dificuldades, a falta de sensibilidade é a que mais dói e a que mais deve ser observada. Certa vez fui a um jantar dançante. Dias depois, minha família percebera um enorme hematoma na minha região lombar, nível da cintura. Surpresa! Lógico, uma grande interrogação. Imbuindo-me do costumeiro papel de detetive de mim mesma, concluí que teria sido provocado pela dança na cadeira de rodas. Certamente, o cinto de metal formado de elos que eu usava naquela noite, provocara atrito nas protuberâncias da coluna vertebral. Hoje danço sem o cinto de elos, mas importa-me muito os elos de afetividade que consigo ligar entre os meus leitores, entre amigos, entre as pessoas com quem desenvolvo algum diálogo. Minha meta é a paz interior e eu sei que a vida me aponta caminhos para isso. Como partícipe, sei que preciso dividir e a melhor maneira de pensar em mim, é pensar em todos. A felicidade coletiva necessita de coadjuvantes. Ela não pode existir sem esforços. E, com certeza, fiz-me recruta, estou alistada no batalhão desses servidores, por princípio, por convicção.
Não lamento o que fazia antes, mas fico satisfeita com o que ainda posso fazer. Acho-me perfeccionista e esmero-me na execução. Não sou narcisista, mas gosto de sentir o mérito da conquista.

Acredito em Deus como integração, por isso os meus retalhos adormecidos ganharão movimentos algum dia, quem sabe noutra galáxia.

Numa semelhança quixotesca, vou cruzando horizontes em vôos alados, impulsionada pelo reconhecimento e o carinho das pessoas que me cercam. O meu trabalho abre caminhos, cria consciência popular, valoriza seres humanos olvidados. E é isso que me gratifica. Vale por todos os salários recebidos. É o que posso fazer pelo meu irmão de barco, pela pessoa com deficiência física, tão preterida neste País.
Fiquei muito feliz ao ser valorizada pela então miss Brasil, Jaqueline Ribeiro Meireles, quando de uma matéria jornalística intitulada: “As mulheres impõem a Lei”. O texto discorria sobre o meu trabalho policial, encimando minha fotografia de cadeira de rodas, descortinando nuances até sobre Pássaro Sem Asas.

A misse endereçou à reportagem a seguinte missiva: “A chefe de jornalismo da Revista Presença. Parabenizo-a por legar a Goiás uma revista bonita em visual e, mais ainda, em conteúdo. Na qualidade de misse Brasil, achei linda a Delegada de Menores de Goiânia, em plena atuação e numa cadeira de rodas. Sua beleza interior, sua sensibilidade, sua coragem e sua abnegação enchem-nos de entusiasmo e vontade de viver. Genaura é mais que uma pessoa da Lei; é mais que uma esposa e mãe; é mais que um exemplo de vida! É, sobretudo, uma paraplégica que consegue ‘voar’ bem alto sem as suas preciosas asas. Que vocês possam continuar publicando essa linda revista, com assuntos tão enobrecedores, para que o mundo fique um pouquinho melhor, e as pessoas que possuem ‘asas perfeitas’ possam também alçar vôos de beleza, de alegria e de trabalho como Genaura. Beijos. (assinado) Jaqueline Ribeiro Meireles”.

Eu não merecia tantos elogios. Confesso que fiquei emocionada, principalmente partidos de uma misse Brasil. Para Jaqueline, o meu agradecimento sincero e toda a minha admiração.

Realmente, nesses anos todos não consegui melhora no quadro locomotor. Tudo permanece inalterado desde aquela noite fatídica, no Hospital Neurológico, em que os cobertores não aqueceram o meu frio, o qual se agregara a mim, compulsoriamente. Contudo as minhas conquistas tornaram-me andante: tiro e ponho sozinha a cadeira de rodas no carro e corro ao seu volante, o que caracteriza uma grande independência, além de haver conquistado o meu espaço de cidadã, tentando nivelar-me aos andantes.
Mais do que nunca, sinto-me senhora do meu pleno equilíbrio. “Sou como a rocha nua e crua onde o navio bate e recua na amplidão do espaço a esmo. Posso cair. Caio. Mas caio de pé por cima dos meus escombros”. Embora não haja a força motora para fisicamente conservar-me ereta, alicerço-me nas asas da coragem para sobrevoar com dignidade esses escombros.

Transpus muitas barreiras até mesmo a do sexo. Não há impossíveis quando envidamos esforços verdadeiros para a superação ou a substituição por valores semelhantes.
A natureza é sábia e a lei da compensação é uma verdade. Quando há uma disfunção ou falta de um órgão, os sentidos encarregam-se do trabalho e ficam muito mais aguçados. O cego, por exemplo, possui a audição perfeita e, por meio dela, compensa a sua disfunção visual, bem como desenvolve as percepções sensoriais e extra-sensoriais, podendo perceber cores por suas vibrações através do tato.

Assim o que me restou ficou muito mais sensível: o beijo mais gostoso e o prazer muito maior com as carícias nos lóbulos das orelhas, cabelos, olhos, ombros, pescoço, seios e, principalmente, nas axilas que, para minha satisfação, substituiu os enleios de prazer do órgão genital. Posso afirmar que não fico a ver navios. Amo e sou amada.

Sexo, para mim, não significa somente contato genital, mas envolve aura, mente, sublimação... Por isso exercito a minha sexualidade num olhar de ternura, num articular de lábios, numa palavra de amor ou, simplesmente, num copo de suco tomado a dois.

Sexo é a sublimação do amor. Fora desse parâmetro, é fisiologismo. O amor procura o sexo e o sexo coroa o amor, ambos alimentados pela vivência, pelas trocas diárias, pelos frutos desse amor...

Amor é procura do eterno.
É a consciência cósmica penetrada em nós.
É a forma mais linda que Deus encontrou para que o homem fosse criatura e criador: propagasse a espécie.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

QUEREM CARREGAR O MEU FARDO


Eis mais um dos capítulos do meu livro - PÁSSARO SEM ASAS!
Um brinde aos meus leitores. Espero que gostem, pelo menos da sinceridade e da coragem de abrir o coração, mostrar a minha privacidade e, especialmente, o tamanho das dificuldades que tive que enfrentar. Hoje, digo: SEM CORAGEM NÃO SE VAI A LUGAR NEHUM!

QUEREM CARREGAR O MEU FARDO
(Genaura Tormin)

Papai estava em nossa casa. Era a primeira vez que nos visitava depois que eu saíra do hospital. Tinha medo de me ver na cadeira de rodas. Como estava bonito, o meu pai! O seu semblante era marcado por preocupação e tristeza, embora escondidas sob a barba que deixara crescer desde a fatalidade que se abatera sobre mim, ou melhor, sobre nós. Para os pais, a gente é sempre criança e necessita de cuidados. Papai não deixara de trazer-me algum agrado: mel de abelha para tomar nas manhãs; doce de leite, requeijão e, ainda, banha de carneiro para fazer-me andar.

— Filha, aqueça esta banha, esfregue nas pernas e enfaixe com ataduras de crepom que vai ajudá-la muito. Fiquei sabendo de um homem que estava como você e andou.
— Obrigada, papai! O senhor é um amor de pessoa! Se eu não voltar a andar, não fique preocupado, pois prometi a mim mesma que vou voar. Vou ficar alada, papai! Vou ter asas e ficar mais veloz. Vou voar com os pássaros na amplidão, nesse infinito azul cheio de liberdade. Vou até as constelações. Quem sabe visitarei a estrela do meu tempo de criança? Lembra-se? Aquela que piscava, piscava e o senhor dizia que ela estava me chamando.

— Você não deixa de fazer brincadeiras. Com coisa séria não se brinc! Lembro-me de que, quando pequerrucha, queria trabalhar no circo. Queria ser artista, equilibrando-se até sobre a sela do cavalo, quando, às vezes, tinha que levar umas palmadas.

— É papai, isso mesmo! Está vendo que a gente consegue o que deseja! Talvez eu quisesse ser trapezista. Agora, vou mesmo exercer algo parecido pelo menos em desafio. Escute só: não vou aposentar-me. Amanhã vou assumir o cargo de Delegado de Polícia no Nono Distrito Policial! Valeu? Vou desafiar paizinho! O senhor já ouviu falar de alguma delegada de cadeira de rodas? Vou ser a primeira! Talvez queiram pôr na minha cadeira um motorzinho V-8, com injeção eletrônica, turbinado... E eu vou botar pra quebrar com um trinta-e-oito na cintura. Já pensou numa estrada reta, a 280 km por hora! Ninguém fará melhor trabalho que eu, o senhor não acha?

— Credo! Pára de falar besteiras! Imagine se Alfredo e eu vamos permitir tal coisa! Fale sério! Pare de rir. Nunca vi uma pessoa numa cadeira de rodas com tanta alegria! Todas que pude ver em Minas Gerais tinham semblante de sofrimento.

— Paizinho, eu vou trabalhar! Vou ser uma Delegada de Políci! Passei no concurso e já fui nomeada. O senhor não se orgulha de mim? Ser delegado é ser chefe. Não vou sair com trinta-e-oito nenhum. Nunca levei jeito para isso. O que vou fazer é instaurar procedimentos policiais, dar ordens, inquirir testemunhas, requisitar perícias, exames de lesões corporais e muitos outros. Terei uma equipe de policiais a meu serviço. Amanhã será o meu primeiro dia de trabalho e o senhor irá comigo. Não posso perder tempo. Vamos conversar na varanda. Tenho que fazer os exercícios, senão, além de não andar, vou ter problemas de osteoporose e calcificação nas articulações. Estou estudando Medicina, sabia? Acho que depois dessa paraplegia vou ser médica charlatã.

Com roupa de malha, fomos para a varanda onde papai ajudou a colocar-me sobre o acolchoado, no chão, para os primeiros exercícios daquele dia: os manuseios feitos pela Edna, minha prima, que voltara a morar conosco.

Para auxiliar-me, ela fizera estágio no Hospital Sarah Kubitschek e, como técnica de fisioterapia, é uma excelente profissional. Moça alta, vistosa, de uma simpatia à flor da pele; muito brincalhona, carregava no rosto um aspecto trigueiro, sempre com um sorriso. Gostava de comparar as pessoas com as aves, e até imitava os seus gorjeios. Ela floreava as frases e a gente acabava sempre às gargalhadas. Edna era mesmo uma pessoa especial em época também muito especial. Frequentemente encontrava uma maneira engraçada para resolver os problemas. Às vezes, saíamos juntas para as visitas, supermercados e até para o cinema. Com ela, sentia-me protegida.

Numa dessas andanças, perguntaram-lhe se eu falava. Após uma mesura e uma olhadela estupefata da Edna, não pude manter-me séria. Ambas caímos na gargalhada, como se não fôssemos mais parar.
A pergunta não ficara sem resposta.
— Não! Ela não fala, só ri — dissera a Edna, limpando os olhos.

— Não me olhe com essa tristeza, papai! As pernas não estão finas. É a falta de controle sobre elas que transmite “peninha”. Estou ótima! Não vê que estou alegre?! A gente não pode ser misse a vida inteira. Os anos já lhe pesam, mas o senhor está muito bonito nessa idade! Entre as pessoas com deficiência, também posso ser vistosa, o senhor não acha?

Papai continuava calado. Olhava-me sempre e seguia os manuseios que a Edna fazia nas minhas pernas.
— Agora de gatão! — exclamara a professora.
Imediatamente obedeci e eis-me feito um grande bebê, querendo engatinhar.
— Para frente! Para trás! — comandava ela.

Por vezes, perdia o pouco equilíbrio e caía para a lateral. O esforço era muito grande para me levantar. Sob meu comando, apenas estavam a cabeça, os braços e as escápulas. Pouco para puxar uma jamanta, como dizia a Edna. Então, ileso era o “cavalo”, isto é, a parte dianteira de um caminhão. A jamanta, talvez carregada de aço, era o resto do meu corpo. Engraçada a comparação. Moça criativa, a Edna!

Alfredo costumava supervisionar os trabalhos. Dava sempre uma chegadinha ao nosso ginásio de fisioterapia. Elogiava os avanços e fazia exigências, fazendo-me querida.
Depois do gatão, Edna declinava o próximo exercício:
— De joelhos!

Nesse momento, papai indignado interpelara:
— Isso não! Assim é judiar demais! Você não vê que ela está paralítica? Por que ainda fazer penitência?
Caímos na gargalhada e até o maridão não deixara de acompanhar-nos. Contudo exclamara:

— É, meu sogro, ela precisa fazer penitência para recuperar os passos. Mas a Edna exagera muito. O senhor verá muita coisa ainda!

Pobre papai! Homem do interior que vivera a maior parte da sua vida no campo, na lavoura, cuidando do gado, não havia acompanhado o progresso das grandes cidades. Com o seu coração de pai, tentava me proteger. Não entendia que eram exercícios, e indispensáveis, aquelas posições.

Agora seria a vez das paralelas. Edna acoplara-me ao aparelho ortopédico com botas e com a ajuda do Alfredo fui colocada na vertical, segurando-me nas paralelas (dois canos galvanizados, paralelamente dispostos à altura do quadril). Estava de pé. Olhava a todos testa a testa. Estava alta, arrogante. Será que era alta assim? Os saltos de quatro centímetros das botas, para compensar os tendões das pernas que se encurtaram, não poderiam ser esquecidos.

Papai, sisudo, parecia não gostar daquele espetáculo. Tantos amarrilhos, hastes de metal, cinto de metal, até que desabafou:
— Isso parece arreio de cavalo!
— Não, meu sogro, tutor longo com cinto pélvico! — retrucara Alfredo. — Isso é para fazer circular o sangue, melhorar as funções intestinais, urinárias, e ainda evitar osteoporose nas pernas, pois o cálcio que ingerimos em forma de alimento não é absorvido pelos ossos se eles não estiverem em uso. Assim, meu sogro, os ossos ficam fracos, como se estivessem brocados. Por isso Genaura precisa ficar de pé. As pernas precisam sentir o peso do seu corpo.

— Coitada de minha filha, paralítica! — entoara sentido, o papai.
— Paralítica, não! Deficiente! — Atalhou imediatamente o Alfredo, como se as duas palavras não fossem sinônimas. Era mesmo o desejo de não me machucar, não me ofender.
Acho que papai e Alfredo sofriam muito mais do que eu que estava sendo protegida por todos os lados. As crianças faziam as suas partes, dando-me carinho exagerado.

Nas paralelas, vendo-me estampada num grande espelho à frente, apetrecho imprescindível para a correção da postura e dos passos, observava o golpe que a vida havia-me desferido. Como criança indefesa, pensava em mamãe. Ah, se ela estivesse viva! Certamente viria morar conosco para amenizar-me a falta de locomoção.

Mamãe era disposta, alegre, extrovertida. Para ela, não havia impossíveis. Possuía um coração imenso e espiritualizado. A importância maior era dirigida aos filhos que, como ela sempre dizia, constituíam o seu tesouro. A felicidade da gente era muito mais a felicidade dela.

Mamãe era líder. Aonde chegava, encantava sempre. Fora muito bonita nos verdes anos. No entanto era a sua beleza interior que impregnava a todos. O sorriso largo, os olhos azuis e a imagem de fada madrinha enchiam de luz qualquer lugar. Gostava muito de cantar, declamar... Como gostava de ouvi-la cantar as românticas músicas do seu tempo. Poesias épicas, ela sabia de cor e as recitava com galhardia.

Agora como estava precisando dela! Que saudade dolorida arrebatava-me o peito! Será que estaria à minha espera na eternidade? Como não nos é dado decifrar o após morte, mas acreditando na imortalidade da alma, mamãe até poderia estar ali, num corpo etéreo, velando por minha vida, dando-me apoio e insuflando-me coragem como sempre o fizera nos meus momentos mais difíceis. Era no seu regaço que os problemas revertiam-se em “coisinhas banais, corriqueiras, plenamente resolvíveis”.

Hoje, pensar que a sua presença translúcida amaina o meu caminho, canta para dissipar minha tristeza, encoraja-me nos fracassos, diminui minha condição de órfã para arremessar-me ao alto, vendo-me pelo crânio e não pelos pés que, há muito, não impregnam formas no chão.

MINHA MÃE

Minha mãe!
Quanta saudade!
Brado o seu nome
E tenho o eco por resposta.

O telefone do céu está mudo.
Há muito tempo vivo órfã!
Preciso de um colo
Para descansar meu corpo,
Preciso de um ombro
Para chorar.

Mãe,
Preciso de você para me guiar!
Queria dar-lhe o carinho que guardei.
Dizer da vida,
Das dores, dos amores
E das quedas que levei.
Estou indefesa,
Uma criança outra vez.
São tantas as queixas...

Mãe,
Sua presença me devolve a paz.
A silhueta etérea me acompanha
E sob as suas asas sou amada.
Mas é sempre em sonho
E você me deixa quando alguém me toca.
A claridade quebra o encanto.
E ainda por um instante, deixa-me fitar
Os olhos azuis de quem eu amo tanto!

domingo, 8 de maio de 2011

SAUDADES DE MINHA MÃE


SAUDADES DE MINHA MÃE
(Genaura Tormin)

Mãe,
Mais um tempo se passou!
Os olhos lacrimejam
E ferido está o coração.
A caminhada ficou dolorida,
Alcantilada e fria,
Sem rumo, nem direção.

Como sinto a tua falta!
O cansaço faz-se plangente,
E os passos trôpegos
Vão machucando a gente.

Ainda sou refém do tempo,
Argamassa do oleiro,
Na esperança de ser pássaro
E poder voar aos teus braços.

domingo, 1 de maio de 2011

DIA MUNDIAL DO TRABALHO


DIA MUNDIAL DO TRABALHO
(Genaura Tormin)

Somos uma Nação organizada, tutelada! Todo poder emana do povo e em seu nome será exercido, diz a nossa Lei Maior.
Como princípios fundamentais encontram-se a cidadania, a dignidade da pessoa, os valores sociais do trabalho, entre outros.

E o trabalho remonta aos tempos do homo sapiens, das cavernas, por estar ligado à sobrevivência. Trabalho significa dignidade. É a possibilidade de o ser humano conseguir o sustento da família, sem ajudas vexatórias. Daí a frase que costumo repetir: Não se deve dar ao homem o que ele pode conseguir com o fruto do seu trabalho sob pena de roubar-lhe a dignidade.

Com o passar dos séculos e com a evolução dos povos, naturalmente, necessário se fez a normatização das condutas, consuetudinária ou não, para garantir direitos às relações entre os indivíduos.

E no século passado, mais precisamente, nos idos de 1934 a 1937, no nosso torrão brasileiro, sob o domínio de um Presidente altruísta e determinado, o gaúcho Getúlio Vargas, homem de grande visão política das condições existenciais daquela época, nascia as Comissões Mistas de Conciliação e Julgamento, embrião que veio a se transformar na JUSTIÇA DO TRABALHO, braço do Poder Judiciário, vislumbrada na Constituição do Brasil, ainda getulina, de 1946, ano de minha estréia como ser vivente em terras nordestinas deste meu querido Brasil! Conotativamente, o meu desvelo pelo trabalho, pela satisfação de poder emprestar minha participação, embora, agora, numa cadeira de rodas.

Conhecedora da sua eficácia, por integrar-lhe os quadros há alguns anos e por me preocupar com o lado sociológico do nosso povo, posso afirmar sem medo de errar, que se trata da justiça mais acessível, mais célere e a mais democrática deste país! Uma conquista e uma necessidade para resguardar as relações sociais, também advindas do crescimento da tecnologia, principalmente da informática, industrialização, globalização, cujas lides processuais sobrecarregam o Judiciário.

Trata-se de uma Justiça Especializada, como a de vários outros países do mundo, como a da Alemanha que se parece muito com a nossa, a da Inglaterra, a da Suécia, a da França, a da Bélgica e outras mais.

E hoje é o DIA 1º DE MAIO, dia mundial do trabalho! É com o trabalho que se erradica a pobreza, a marginalização, reduzindo as desigualdades sociais, garantindo-se o Estado Democrático de Direito.

É de bom alvitre lembrar que somos a décima economia do planeta, graças ao trabalho daqueles que com o suor do rosto e com as mãos laboriosas sustentam o país nesse patamar.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

CHEGOU A PÁSCOA


CHEGOU A PÁSCOA!

Genaura Tormin

Eu não sei o que poria
Dentro de um ovo de páscoa
Para um desafeto.
Esse vocábulo
Não existe no meu dicionário.
Não gosto do “D” que o inicia.

Para começar,
Nem sei o que é isso.
Nunca experimentei.
Se ofendo, peço desculpas,
Se me ofendo, relevo.
Para mim,
Tudo é alegria,
Uma simbiose fraterna,
Repleta de harmonia.

Um círculo vicioso,
Alimentado pelo respeito mútuo,
Pelo carinho,
Pelo afeto dengoso,
Que se debulham em madrigais,
A cada encontro.

domingo, 10 de abril de 2011

UMA NOTA DA AUTORA


UMA NOTA DA AUTORA
(Genaura Tormin)

PÁSSARO SEM ASAS surgiu com a dor. É uma história de vida ou memórias romanceadas. Nele, devasso-me sem reticências depois de uma inesperada paraplegia. Conto todas as dificuldades, batalhas e aprendizado para sobrepujar a fatalidade. Para ser adotada pela vida.

Falo de mim, falo de amor, falo de dor, de vitórias e muito mais. Solto a lira de meus versos. Curto minha imobilidade. E os meus retalhos adormecidos ganharão movimentos algum dia. Quem sabe noutra galáxia?

PÁSSARO SEM ASAS é um misto de momentos lúdicos, sofridos, emocionados. Chega a porejar sangue. É o driblar de uma bola sem chutes, mesmo ao arrepio da vida.
A crença em mim mesma devolveu-me não pernas, mas ASAS. Sinto-me alada depois de tanta tempestade. Com elas cruzei horizontes, voei com os condores em terras calcinadas, extrapolei mares, venci tormentas e me encontrei.

As escarpas do caminho fortaleceram minha couraça rumo aos objetivos. Dentro de minhas limitações sou livre: corro em idéias, em versos, em trabalho...

Não sou vista diminuída, mas até acrescida. O meu trabalho tornou-me um ser humano inteiro. Por incrível que pareça, tornei-me uma Delegada de Polícia! Atuei na vanguarda contra a escalada do crime, como uma profissional inusitada, pelo menos, em visual.

Depois, também por concurso público, ingressei no Judiciário Federal, onde me sinto honrada de emprestar minha participação de trabalho. Afinal somos herdeiros dos nossos atos e senhores de nossas colheitas.

Que as minhas experiências conduzam o leitor à reflexão, fazendo-o descobrir que cada um pode ser a pessoa mais feliz do mundo, procurando ascender sempre rumo ao bem, creditando as dificuldades como mérito seu, uma vez que não há limite que obstaculize uma mente determinada.

sábado, 2 de abril de 2011

PRIMEIRO CANTO À IMOBILIDADE


PRIMEIRO CANTO À IMOBILIDADE
(genaura Tormin)

Totalmente adaptada, a casa ficara pronta. Tudo estava entrando em ordem. Começava a aprender comigo mesma uma série de lições motivada pelas necessidades. Parecia um bebê descobrindo o mundo. Precisava ser positivo o propósito de minha vida. Com certeza, eu não teria nascido com a finalidade de causar problemas, de prejudicar aos outros, de ser fardo em seus ombros. As muletas estavam aparecendo em forma de adaptações, e eu as iria usar para substituir os muitos cerceamentos estampados pelo corpo.

Pela manhã, geralmente tomava café na cama, lia o jornal e, logo em seguida, partia para a bateria de exercícios físicos, aprendidos no Hospital Sarah Kubitschek. Com o tutor longo com cinto pélvico, ficava por mais uma hora na postura vertical, segurando-me nas paralelas (dois canos galvanizados dispostos paralelamente à altura do quadril humano médio). Ali, depois de percorrê-la por inúmeras vezes, carregando o corpo com a força dos braços em forma de pulos, procurava ler alguma coisa que me ajudasse naquela fase tão difícil. Tinha que me ocupar para tentar esquecer da catástrofe.

Mesmo nas paralelas, orientava os filhos na feitura das tarefas. Não abdiquei da função de dona de casa. Transferi a cozinha para a área de serviço, ao lado da varanda, onde estavam os apetrechos de fisioterapia. Dessa forma, poderia “matar dois coelhos de uma só cajadada”: fazer exercícios e administrar a serviçal que era iniciante, além de ficar perto dos filhos.

Sempre que possível, ia às compras de supermercado com a família. Era-me doloroso o reencontro com as pessoas conhecidas. Ah! As lamentações, o espanto ao verem-me presa à cadeira de rodas, “desenterravam sempre o defunto”, fazendo-me lembrar de que estava paralítica e muito diferente dos demais. Estava cerceada do meu direito ao caminhar. Hoje, não gosto de dar pêsames a ninguém. Talvez seja por isso. Acho que é abrir uma ferida sempre. Limito-me, apenas, a dar um abraço, um beijo...
Alfredo havia pedido um carro para mim com uma adaptação nova, de origem italiana, mostrada no programa Fantástico da Rede Globo de Televisão. Por capricho, essa amostragem dera-se poucos dias antes da paraplegia. Lembro-me de que estava recostada nos joelhos do Alfredo e ainda elogiamos o avanço da tecnologia, quando nos recordamos de um nosso ex-professor da época da faculdade que estava tetraplégico.

Confesso que me tocou muito o depoimento da moça paraplégica que experimentava o veículo defronte das câmeras: “Estou me sentindo um pássaro fora da gaiola” — dizia ela.

Talvez tudo isso fizesse parte de minha preparação, assim como os últimos poemas meus. Que ironia do destino! Um carro igual viria para mim. Viria substituir o meu carrinho amarelo. Eta carrinho! Amigo mudo que me auxiliava em tudo sem nunca reclamar. Agora seria um veículo da Fiat que comportaria as minhas pernas de aço (a cadeira), ajudando-me a aprender outra forma de viver.

Passaram-se quase sete meses desde a última vez que havia andado com os meus pés. A fisioterapia não me devolvera nenhum movimento. Não mexia sequer o dedão do pé. Mas estava quase me adaptando a caminhar sem fazer rastros, pois não havia outras opções. Em paraplegia, adaptar-se é irreversível. Caso contrário corre-se o risco de sofrer muito. Carrega-se o peso das dificuldades ou o do cadáver. Estar paraplégico é morrer um pouquinho todos os dias. É sentir-se prisioneiro no cárcere estático do próprio corpo. É exercitar a paciência, creditando à evolução do espírito o desafio de vencer as barreiras de si mesmo.

Além dos exercícios físicos diários, procurava preencher o tempo disponível para não dar espaço a pensamentos atrevidos ou saudosos, contrários ao meu objetivo. “Cabeça vazia é sempre oficina para o diabo”. Por isso fazia crochê, tricô, conseguindo bordar até uma toalha de banquete. Ocupava-me com leituras, conversas ao telefone, visitas de amigos e com os filhos que sempre estavam ao meu lado, auxiliando-me em tarefas complementares, além de me paparicarem muito. Eles estavam carentes e eu também. Era bom sentir o amor que me dedicavam, estampado na ternura, no carinho, alicerce maior de minha razão de viver.

Tudo o que fazia, com as dificuldades da primeira vez, era dolorido. Abria-me sempre a ferida. Embora não externasse, sofria por dentro. Meu avesso não queria confirmar a paraplegia, mas as dificuldades do “fazer” jogavam-me no rosto a dura realidade. Por isso queria fazer o máximo de atividades diversificadas possível para vencer logo a prova de fogo e tornar-me campeã de mim mesma, assumindo com dignidade a minha condição. Estava a construir uma couraça para resistir às dificuldades. Oxalá essa couraça se transformasse em pérola, já que esta é o resultado de uma ferida cicatrizada. Por vezes, o ego agradecia essa bravura.

Nessa época, um dia, estando em casa sozinha pela manhã, planejei como poderia tomar um banho. Despi-me na cama, passei para a cadeira de rodas, transferi-me para o vaso sanitário e em seguida passei para uma cadeira normal, semelhante às de bar. Com muita atenção e cuidado, tentei dar pequenos impulsos com os ombros para chegar ao box, quando a cadeira caiu para trás, lançando-me ao chão. Mal consegui desvencilhar-me dela, empurrando-a para frente. Não pude fazer mais nada, nem sequer me arrastar até a cama. Não conseguiria subir. Fiquei calma. Tinha assumido o risco. Aquela manhã estava fria, muito fria. Consegui alcançar a toalha de banho que se desfraldava no cabide à altura do meu braço. Como não tinha (e até hoje ainda não tenho) sensibilidade em mais de dois terços do corpo, protegi as partes sensíveis, ou seja, ombros, braços e cabeça, e deixei-me ficar no chão frio do banheiro. Pensei na serventia dos meus braços ilesos, e agradeci. Resisti à emoção que me apanhara de surpresa. Pena, por quê!? Repreendi imediatamente a estima ferida. Tentei dormir. Era o que de mais sensato poderia fazer. Cheguei a sonhar, quando fui acordada pelos filhos que chegavam da escola com o pai. Pensaram que eu estivesse morta ali no chão. A voz chorosa e agoniada do Fernando sobrepujava às demais. Graças a Deus que o choro deles foi em vão. Estava vivinha!

Lembro-me de que na igreja, durante a missa, uma senhora olhava-me tanto que cheguei a ficar perturbada. Depois da cerimônia, uma reunião no salão paroquial, a qual também compareci. Lá, a mesma senhora continuava a olhar-me insistentemente, como se eu fosse fantasma ou extraterrestre, sem, entretanto dirigir-me a palavra. Na ocasião, um garoto postou-se entre nós, impedindo, involuntariamente, que ela continuasse fixada em mim. Coitado, levou um empurrão. Percebi que representava uma figura inusitada para ela e, quem sabe, para muitos outros. Foi aí que senti, maior do que a minha saudade de andar, o desejo de abrir caminhos, construir nova mentalidade e mostrar que a pessoa com deficiência física é um ser social e deve ser aceita porque faz parte, contribui e produz, podendo até ser força transformadora, servindo de incentivo e exemplo aos muitos paralíticos andantes que permeiam todas as classes sociais.

Assim, precisava circular, mostrar-me, atuar, andar com o que me havia restado. Não era uma conquista, mas uma missão. Era preciso entender a mensagem e acreditar no poder da mente, na força da palavra e do exemplo.

No retorno a casa, a manhã estava gostosa. O sol, intensamente brilhante penetrava no meu quarto. Para senti-lo, sem amarras de janelas, galguei o corredor da casa e logo estava debaixo da romãzeira florida à beira da piscina.

O vento fazia rodopios no quintal como se me quisesse saudar, como se quisesse alegrar o meu avesso tão sofrido. O céu de um azul sereno fazia-se enfeitar por pequenas nuvens viajeiras, além de pandorgas coloridas empinadas pela criançada, cujo vozerio alegre e estridente chegava aos meus ouvidos. A vida movimentava-se faceira. A romãzeira dançava solitária, atirando suas folhas nas águas adormecidas. Agora pereciam pequenos barcos, navegando sobre calmarias, expostos às adversidades: ao sol escaldante, à chuva, aos icebergs e à própria morte. Alguém escoaria a piscina. Aqueles barquinhos de folhas seriam amontoados como lixo num lugar qualquer. Mesmo assim ainda seriam úteis. Tornar-se-iam adubo para fortalecer uma palmeira altiva ou uma roseira transverberada em pétalas rubras e aveludadas, dissipando o orvalho da madrugada sob o milagre dos primeiros raios de sol. E são as flores que declaram amor, enfeitam altares e fazem-se presentes na última despedida ao partirmos desta vida.

Mergulhada nessa meditação sublime, senti vontade de cantar a minha imobilidade, transformando-a num hino benfazejo.

Mente e coração andantes

Quero curtir minha imobilidade,
Mobilizando corações,
Marcando passadas
Em cada gesto,
Em cada grão de areia,
Carreando-os para o infinito.

Quero sentir
O gosto de ter pernas.
Acariciá-las,
Com o tato dos dedos,
Mobilizando todas as moléculas.
Quero sentir-me dançando
Ao som de Beethoven ou Bach,
Transando a paz de minha paraplegia
Ao compasso do coração
E à sincronia do cérebro.

Quero andar,
Mais do que todas as pessoas,
Embora saiba que,
Se externamente,
Não marco o chão
Com minhas pegadas,
Meu espírito se alicerça
Em pernas fortes,
Com mente e coração,
Energicamente andantes.

Foi assim que comecei a ser moldada para a nova vida. Adaptar-me ao novo visual não foi fácil. Tive que proceder a incessantes buscas ao meu interior: procurar, nos meandros de mim mesma, as fraquezas escondidas e transformá-las em força direcionada. A autoestima, agora sem a faceirice das pernas dançarinas, foi o carro-chefe para as demais conquistas.

Entretanto a lembrança dos sapatos de salto alto, das competições no trampolim da piscina e das corridas a cavalo e de bicicleta, por vezes, fazia-me gemer a dor do irreversível.

Não podia ser minha própria vítima. Por isso era compensador lembrar-me da fábula em que um homem se maldizia por ter apenas bananas para comer. Qual não fora a sua surpresa ao ver que alguém, atrás de si, estava a comer as cascas.
Assim a vida ainda me parecia muito interessante. Havia muitas cascas de banana atrás de mim. Poderia fazer minhas competições abstratas nos trampolins da imaginação e ser a campeã de todas as corridas, emprestando ao corpo a faceirice do espírito. Poderia mesmo marcar passadas a cada momento, mobilizando muitos corações paralíticos, enrijecidos pelo negativismo, pelo ódio, pela inércia, embora envoltos em ANDANTES CORPOS.

Restaran-me as mãos. As minhas mãos! Feito uma oração, ajudam às minhas pernas, transferindo-as, tão ternas, para a cadeira, o carro... E até quando vou me deitar, lá estão elas dispostas a me ajudar. Por que eu iria desanimar?